-O que começa mal, no mal termina.
Mexe e remexe este caldo imundo
quatrocentos e tantas gramas.
Outro sabor na mistura engrossa o caldo (RISOS)
A fibra muscular, ninguém duvide,
tem a mesma substância, o mesmo gosto
que as coxas de uma moça insultam... (Risos)
Este naco de carne é o alimento
De que se nutre a avareza e o ódio atávico
que ainda separa as raças deste mundo!...
Vai carne, a azeda esta infusão!
Que mais azeda ainda é a vingança
Do que o caldo que ferve neste caldeirão!...
Sarah
-Três mil ducados.
Bassania
-Sim senhor. Por três meses...
Sarah
-Por três meses...
Bassania
-Dos quais, como lhe disse, Antônia será a fiadora.
Sarah
-Antônia servirá de fiador...
Bassania
-Posso contar com a senhora? Pode fazer-me este favor? Posso saber sua resposta?
Sarah
-Três mil ducados, por três meses. E Antônia como fiadora.
Bassania
-E então? Qual é a sua resposta?
Sarah
-Bem, Antônia é uma mulher honesta.
Bassania
-A senhora não encontrara ninguém que o diga ao contrário.
Sarah
-Oh! Não, não! Quando digo que ela é honesta, quero apenas dizer que como fiadora é suficiente. Ela tem um navio a caminho de Tripoli, outro indo para as Índias. Mas navios são apenas tábuas, e marinheiros, homens. Há ratos na terra e ratos na água, ladrões em terras e ladrões nas águas, quero dizer, piratas... E além disso, há perigo dos ventos, das ondas e dos rochedos. Mas o homem é honesto. Suficiente... Huum!... Três mil ducados... Acho que posso aceitar essa fiança.
Bassania
-Seu dinheiro estará seguro.
Sarah
-Pode estar certo de que tomarei as providencias quanto a isso. Posso falar com Antônia?
Bassania
-Por que não janta conosco?
Sarah
-Isto nunca! Para comer carne de porco? Posso fazer negócio com vocês, conversar com vocês, passear com vocês. Mas não comerei não beberei e nem rezarei com vocês! (Ouve-se a voz de Antônia chamando Bassania em OFF ) Eh! Quem vem lá?
Bassania
-Parece que é Antônia. Vou ao seu encontro. (SAI)
Sarah
-É ela mesma, a falsa publicana. Por ser ela cristã é que a odeio, mas acima de tudo, porque em sua simplicidade vil, a maldita empresta dinheiro gratuitamente e faz baixar a taxa de juros. Se puder pega-la em alguma falta, hei de saciar o meu antigo ódio. Não posso perdoá-lo.
Bassania
-(ENTRANDO COM ANTÔNIA) Aqui está Antônia senhora Sarah.
Sarah
-Saúde e paz, senhora Antônia.
Antônia
-Sarah, vou lhe dizer uma coisa, e bem claramente. Embora eu nunca empreste nem peça emprestado aceitando ou pagando qualquer juro, neste momento, para atender o caso urgente desta perante e amiga, resolvi romper os meus princípios.
Sarah
-sei, sei... três mil ducados.
Antônia
-Por três meses.
Sarah
-É isto. por três meses. Foi o que me disse Bassania. Muito bem. Com sua fiança. Mas se não me engana a senhora acabou de declarar que não empresta nem pede nada visando lucros!...
Antônia
-É verdade. Nunca fiz isso!
Sarah
-Quando Jacó cuidava das ovelhas de seu tio Labão.
Antônia
-Não vai dizer que ele cobrava juros...
Sarah
-Não, não cobrava. Não diretamente. Ele e o tio fizeram um acordo: todos os cordeiros malhados que nascessem seria de Jacó. Os que nascessem brancos ou pretos seriam de Labão. Na época do cio, Jacó colocou as ovelhas e os carneiros diante de varas de cores diferentes; assim elas foram fecundadas e pariam somente crias malhadas. Foi um meio de ganhar. Não sendo roubo, todo lucro é benção...
Bassania
-Ora Sarah, esta é uma história ridícula!
Antônia
-Foi mero acaso que resultou em lucro para Jacó! História falsa! Não dependia dele o resultado. É a mão de Deus que tudo faz e guia. E se fosse verdade? A história justifica que se cobre juros? Sua prata e seu ouro não são ovelhas nem carneiros!
Sarah
-Não sei se são. mas eu os multiplico com a mesma rapidez, pode estar certo...
Antônia
-Está vendo Bassania, como o Diabo tira aproveito até da bíblia? Como é belo o exterior da falsidade!
Sarah
-Bem, são três mil ducados. Uma soma redonda senhora Antônia, por três meses em doze.
Antônia
-Então Sarah, está de acordo?
Sarah
-Senhora Antônia, quantas e quantas vezes a senhora fez pouco caso do meu dinheiro e me condenou, porque eu cobrava juros!?... A senhora me chamou de tudo: de cão. de incrédula, de avarenta. Mas, agora, como se vê, a senhora precisa de mim! A senhora, que me expulsava a ponta-pés como se expulsa uma cachorra vadia, vem pedir dinheiro! É o caso de perguntar: cachorra tem dinheiro? Será que cachorra pode emprestar a alguém três mil ducados?
Antônia
-Engana-se Sarah. Continuo a chama-la de cachorra. se quiser nos emprestar o eu dinheiro, não empresta como se empresta a uma amigo. Empreste como se empresta a um inimigo, pois se ele não pagar, com muito mais alegria o senhor há de arrancar dele tudo que lhe deve!...
Sarah
-Ora, Ora. Como a Senhora está irritada! Quero prestar-lhe um favor, conquistar sua amizade, esquecer as injurias que sofri. E o senhor não me quer ouviu! A oferta é amiga...
Bassania
-Realmente, muito amiga...
Sarah
-Pois vou lhe dar a prova de amizade. Vamos ao cartório e lá assinaremos o documento de dívida no qual, por brincadeira, vamos declarar que se no dia tal, em tal lugar, não for paga a quantia que eu empresto, os três mil ducados, a senhora dona Antônia, concorda em me ceder, por livre e espontânea vontade, uma libra da sua carne que será cortada do seu corpo onde eu quiser...
Antônia
-Sem juros?
Sarah
- Sem juros...
Antônia
-Aceito! Assinarei o documento e vou até dizer que um judeu, ás vezes, pode ser bondoso.
Bassania
-De jeito algum! Não deixarei que assine em documento desse, Antônia! Não por minha causa! Prefiro continuar passando necessidades!
Antônia
-Não se preocupe Bassania. Daqui a dois meses, isto é, um mês antes de vencer a letra, vou receber nove vezes, ou mais, o que vala a dívida.
Sarah
-Como são desconfiados os cristãos, ó pai Abraão!... Por serem como são, sempre suspeitam das intenções alheias! Diga-me uma coisa senhora Bassania: se ele não me pagar no dia certo, o que é que eu vou lucrar cobrando multa? Uma libra de carne humana, quando retirada de alguém, não vale tanto nem é tão aparecida... Se aceitar, tudo bem. Se não aceitar adeus. Caso encerrado.
Antônia
-Pois aceito Sarah. Assinarei a letra.
Sarah
-Neste caso nós nos encontraremos no cartório. Levarei o dinheiro. Passa bem, grandes senhoras.... (SAI SARAH)
Antônia
-Esta judia ainda acaba convertido. Já se mostra até bondosa.
Bassania
-Não confio em frases doces ditas por avarenta. Mas preciso deste dinheiro Antônia.
Antônia
-Sou sua amiga, mas que sua parente. Fique tranquila. Você não me deve nada. Não há razão nenhuma para minha aflição. Antes de vencer o prazo, Bassania, os meu navios voltarão.
(BK. MÚSICA A LUZ INCIDE SOBRE PARCA E SEU CALDEIRÃO)
Parca
-Avareza e ódio. Bela combinação!
Quem arriscaria os seu haveres
em tão arriscaria transação?
Sarah firmou o documento
e ainda indicou precisamente,
o lugar do corpo do Antônia,
de onde seria a carne retirada
se ela não pagasse o seu quinhão:
no peito, bem junto ao coração...
Avareza e vingança: eis outros nomes
que o diabo usa.
Foi assim que, pela força do mar,
foi-se a riqueza, e um por um,
foram-se os barcos da infeliz Antônia!...
(BK. MÚSICA. LUZ SOBRE A CENA, ANTÔNIA ENTRA APRESSADO, GRITANDO POR BASSANIA QUE ESTA EM CENA )
Antônia
-Bassania! Bassania!
Bassania
-Que gritaria é esta? Antônia! Minha amiga!
Antônia
-Desgraça, Bassania! E se anuncia aos gritos!
Bassania
-Mas que desgraça, meu Deus?
Antônia
-Estou falida! Perdi meu navios.
Bassania
-Como? E os seu navios da Índia, da Inglaterra, do México e Lisboa?
Antônia
-Naufragaram todos! Nenhum fugiu do choque horrível dos penedos. E com eles se foi minha fortuna!
Bassania
-E então Antônia?
Antônia
-Não pagarei a Sarah o prometido! A letra está vencida!
Bassania
-Mas por que não me avisou? Hoje, dinheiro já não me faz mais falta, e nem preciso!
Antônia
-Não tive como! E você esteve fora por muito tempo. Além do mais, você me conhece. Sempre o desobriguei daquela dívida. Posso perder a vida mas não perco a honra.
Bassania
-Mas é minha amiga antes de tudo! Mesmo à distância, sabe que eu não lhe faltaria!
Antônia
-Não é este problema, Bassania. A letra está vencida. E mesmo que eu tivesse o necessário para pagar a Sarah, ela recusaria. Não quer receber nada. Quer cobrar a multa. é a minha carne que deseja!
Bassania
-Não acredito!
Antônia
-Nunca vi uma criatura que mostrasse tão feroz empenho em desgraçar um homem! E é sobre mim que esta vingança se consuma! Noite e dia reclama junto ao Dodga protestando contra a violação do seu direito, se lhe negarem o que a lei concede!
Bassania
-Não quero ouvir mais! Não é possível!
Antônia
- A própria Dodga e vinte mercadores, os senadores de maior prestígio, tentaram dissuadí-lo sem que nada conseguisse demovê-lo.
Bassania
-Ninguém pode ser assim tão desumano! para quando está marcado o julgamento?
Antônia
-Para hoje à tarde!
Bassania
-Coragem, Antônia! Lá estarei! E não me chamo Bassania se não puder demovê-lo deste intento! Pago a Sarah e acabo com esta farsa! Deus não há de permitir esta desgraça!
(BK. MUSICA DE CORTE TROMBETAS, A CORTE DE VENEZA ENTRA NO FÓRUM ONDE VAI SE DAR O JULGAMENTO QUE É ENTÃO ILUMINADA, PRESENTES A DODGA, ANTÔNIA, BASSANIA, SALÂNIA E OUTROS)
Dodga
-Está presente a mercadora Antônia?
Antônia
- Às ordens de vossa graça!
Dodga
-Causa-me pena a tua situação. Vieste ao tribunal para defrontar-te com um inimigo de pedra, um desumano, que é incapaz de comover-se, vazio de sentimentos, e que não tem, pelo que sei, o menor rasgo de comiseração.
Antônia
- Soube de vossa graça tem-se esforçado muito para atenuar o rigoroso curso deste caso. Mas já que nenhum meio legal me livra desta pena, a minha paciência oponho ao ódio com que ele se apresenta...
Dodga
-Introduzam Sarah no recinto!
(SARAH ENTRA NO RECINTO COM UMA FACA ENORME E UMA BALANÇA)
Sarah
-Aqui estou confinado em vossa graça!
Dodga
- Sarah! O mundo pensa, e eu também, como todos, que tencionas persistir nesta cruel cobrança somente até a última hora do processo, depois de que, é o que diz, irás mostrar-nos doçura e consideração mais raras do que este gesto de crueldade encarna. Antecipa, pois, tua decisão. Em vez de agora reclamares a multa.
Sarah
- Já expus a vossa graça o que pretendo. Decerto haveis de perguntar-me a causa de eu preferir um peso de carniça a ter de volta os meus três mil ducados, Isca de peixe, vossa graça. Se não servir para alimentar alguma coisa, servirá para alimentar minha vingança. Ela me humilhou. Que a lei seja cumprida! Esta é a minha resposta!
Bassania
-Não há resposta que justifique a crueldade!
Sarah
-Não tenho obrigação de ser amável para responder!
Bassania
-Os homens não matam tudo o que amam!
Sarah
-E quem não mataria quando odeia?
Bassania
-Nem toda ofensa, por princípio, é ódio!
Sarah
-Consentiria que a serpente o picasse duas vezes?
Antônia
-Não adianta. É como ir para a praia e ordenar que as ondas não se elevem. Por isso eu peço: seja eu julgado segundo as leis de terra, deixando que Sarah consuma o seu intento.
Bassania
-Em vez de três mil ducados dou-lhe seis mil agora!
Sarah
-Nem que fosse mil vezes seis eu não queria. Persisto em exigir a multa do contrato!
Dodga
-Se não mostrar piedade, como podes querer que ela te valha?
Sarah
-Mas que castigo tenho a temer se não fiz nada errado? Só exijo o que me é direito!
-----------------Fins de frase-------------------
Sarah
-Do contrário, são falsas as leis e os decretos de Veneza!
Dodga
-T... um doutor jurista que mandei vir para estudar o caso, não puder chegar ainda hoje.
Bassania
- Já esta ai fora senhor, acaba de chegar!
Dodga
- Então manda chama-la!
Bassania
- Porque amola esta faca com tanta persistência?
Sarah
-Para cortar a multa feito pelo fiador.
Bassania
Não é na sala do sapato, mas na alma, judeu perverso que devia amolar a faca. E mesmo assim, não se vai achar metal algum, nem o machado do carrasco, que tenha a metade do corte que tem a sua inveja! Nenhuma oração pode comovê-lo?
Sarah
-Não, nenhuma que o senhor saiba rezar.
Bassania
-Cachorra maldita!





